2007-07-01

Como lemos uma imagen?



Acabei de ler o segundo capítulo o The Photograph de Graham Clarke. O título é idêntico ao deste post - "How de we read a photograph". Achei este capitulo muito interessante (é uma leitura relativamente "pesada" mas se tomado bem a atenção é enriquecedor).

"Longe de ser um 'espelho', a fotografia é um dos modos de representação mais complexos e problemáticos. (...) Necessitamos de não só ver a imagem, mas lê-lo como uma representação activa de uma linguagem visual. (...) temos de nos lembrar que primeiramente é um produto do fotografo. É sempre uma reflexão de um ponto de vista específico (...). Segundo, no entanto, a fotografia codifica os termos de referência com que moldamos e compreendemos o mundo tridimensional. Portanto existe dentro de um contexto de referência mais alargado e relaciona-se a uma longa série de histórias (...)"

O autor passa então a utilizar a imagem de Diane Arbus "Identical Twins" (1967) como exemplo. Apesar de ser uma imagem que à primeira vista parece simples e imediato - uma fotografia de gémeas verdadeiras - a imagem é na realidade um bom exemplo "da natureza difícil do significado fotográfico".

À partida, a noção de gémeas verdadeiras sugere a semelhança entre as duas miúdas, quase espelho uma da outra. Esta noção também reforça o conceito da fotografia como um registo documental, o espelho daquilo que vemos. "Uma gémea é o reflexo da outra. Mas 'idêntico' infere 'identidade' e o retrato do ser limitado à presença superficial de uma única imagem. Os dois aspectos abrem uma lacuna crítica entre o que 'vemos' na fotografia o que é nos pedido para 'visualizar'.

A colocação das gémeas contra um fundo uniforme e sem qualquer informação para contextualizar, quer a época, que a condição social, retira-nos a possibilidade que colocar os sujeitos num contexto. Arbus neutralizou efectivamente o 'espaço' e 'tempo', e portanto os termos da sua existência. (Este método também é típico de outros fotógrafos, como o Richard Avedon, o que limita a visualização ao retratado e o que a superfície do retratado nos transmite).

O elemento que nos dá uma base de introduzir a analise é efectivamente o caminho que vemos na parte de baixo da imagem, e que corre a um ângulo. Isso reflecte a abordagem da Arbus ás gémeas - a foto não via ao encontro das gémeas de uma forma paralela a elas, as olha para elas algo de lado. "Então aquilo que a imagem começa a reflectir é que, como uma linguagem, o seu significado funciona não através das semelhanças, mas através das diferenças". E são as diferenças que nos dão a identidade. Quanto mais olhamos para a imagem, mais diferenças encontramos - uma está com o sorriso e feliz, a outra esta entristecida; os narizes são diferentes; as golas tem formas diferentes; as dobras dos vestidos são diferentes; as sobrancelhas, as fitas do cabelo, a forma do cabelo, o comprimento dos braços.. diferentes. E quanto mais olhamos, maior o numero de detalhes que encontramos que aumentam a tensão. Contrário ao titulo, as gémeas não são idênticas, mas sim diferentes, e portanto cada uma com uma identidade própria!

Clarke continua no capítulo referindo Barthes e o ensaio "Camera Clara" e a visão deste sobre a leitura de imagens. "(...) ele identifica dois factores distintos no nosso relacionamento com a imagem. (...)studium sugere uma resposta passiva (...) mas punctum permite a formação de uma leitura crítica. Um detalhe na superfície perturba a unidade e estabilidade superficial, e como um corte, inicia um processo de abertura a uma analise crítica. Logo que encontramos o nosso punctum, tornamo-nos leitores activos da imagem. (...) O punctum permite-nos desconstruir, por assim dizer os [seus] termos de referencia, e alerta-nos para o facto que a fotografia reflecte o modo como vemos o mundo em termos culturais.

Procurar no nosso "punctum" (palavra estranha, né?) será efectivamente aquilo que nos permite fazer uma leitura crítica de uma imagem. Por vezes aquilo que nos pode parecer banal, correctamente contextualizado e lido, pode abrir a nossa visão para algo mais alargado, e a visão que se pretende ter da imagem à nossa frente. Mas isto também leva-me a pensar sobre o mesmo conceito, mas antes de produzir a imagem. Será que o fotografo consegue encontrar o "punctum" na cena que está a retratar de forma consciente? De continuamente o encontrar e o utilizar nas imagens que produz? Hmm...

1 comment:

Mónica Martins said...

É um tópico interessantíssimo sem dúvida.

Vários pensamentos me ocorreram enquanto o lia e vieram-me à memória algumas conversas anteriores sobre o assunto.

Julgo que funcionamos de formas completamente distintas enquanto leitores críticos de uma imagem e enquanto produtores dela. Julgo também que neste raciocínio estamos a partir do pressuposto que exista uma intenção, um determinado propósito conscientemente perseguido pelo fotógrafo ao criar a imagem. A correcta contextualização é de facto determinante para podermos fazer uma leitura coincidente com esse propósito e podermos olhar a imagem abarcando o mesmo ângulo de visão do seu autor.
É uma reacção automática que temos ao olhar uma imagem, tentar entender a intenção com que foi feita. A nossa leitura da imagem é a tentativa de a adivinhar. Nesse processo penso que nos esquecemos que muitas vezes essa intenção nunca existiu. Pelo menos não conscientemente.
Pessoalmente realizo-me na fotografia que faço por instinto, naquela foto que surge na fracção de segundo que decorre entre o momento em que a “vejo” e o momento em que o cérebro comanda o indicador para que a registe. É algo feito por reflexo, algo que surge do nada, sem que o cérebro tenha tido tempo para fabricar uma explicação que justifique porque motivo é aquele o momento certo para disparar e não 5 segundos depois.
Quase todas as fotos que mais me comovem e que mais admiro, acredito terem nascido de momentos assim. Uma vez feita e impressa no papel, podemos recostar-nos no sofá e olhar para a foto na parede, filosofando acerca de todo o conjunto de circunstâncias, de envolventes culturais e visuais presentes no nosso subconsciente e que certamente comandaram o dedo na altura do click. Podemos nessa altura tornar-nos conscientes desses valores e dessas referências responsáveis pela forma como vemos o mundo. Não acredito, no entanto, que elas estejam conscientemente presentes e sejam conscientemente ponderadas por nós na altura em que decidimos, em que escolhemos a fracção de segundo ideal para disparar.